Festival comKids Interativo 2018

Há alguns anos, tive a oportunidade de participar do comKids, onde aprendi bastante sobre cinema e infância.

Este ano, o festival tem uma novidade. Em vez de conteúdos audiovisuais, serão premiados conteúdos interativos, entre eles, livros digitais para crianças, ou seja, segundo os organizadores do evento, apps que tenham como proposta principal experiência literária e de leitura interativa para crianças e adolescentes.

Os materiais devem ser abertos e não são aceitos protótipos, além de terem sido finalizados a partir de 2015.

Corra porque as inscrições vão até o dia 10 de maio, na próxima semana.

Os finalistas apresentarão seus projetos durante o festival. Vejo vocês nos dia 16 e 17 de agosto!

Acesse o release de imprensa do evento.

 

 

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Crianças aprendem mais com e-book do que com livro de papel

No final do mês passado, o site da revista Exame trouxe uma pequena matéria sobre leitura digital e crianças, transcrita a seguir. Ao publicar a matéria aqui no blog, estou longe de incentivar a leitura apenas neste ou naquele formato, já que ambos possuem suas idiossincrasias.

Um dos pontos mencionados no artigo, e com o qual concordo totalmente, é a participação de pais e mães no incentivo à leitura, seja em meio impresso ou digital.

E, para quem ficou curioso, as pesquisadoras desse estudo são Gabrielle Strouse, da University of South Dakota, e Patricia Ganea, da University of Toronto, no Canadá.

 

Crianças aprendem mais com e-book do que com livro de papel

Estudo feito nos EUA revela que os livros eletrônicos atraem mais a atenção dos pequenos. Mas, a longo prazo, isso também pode ter um efeito ruim

Encontre uma criança em um restaurante e você provavelmente verá um tablet pertinho dela. Bebês e telas têm uma curiosa e fofíssima relação. Mas será que é possível tirar proveito dela?

Um grupo de pesquisadores dos EUA e do Canadá acha que sim. Eles estavam estudando os benefícios que surgem quando pais leem para os seus filhos. A prática é importante para ajudar as crianças a ampliar seu vocabulário, a introduzi-las à leitura desde pequenas e estimular seu desenvolvimento com relação à linguagem. Os cientistas queriam entender se faz diferença ler um livro impresso ou um e-book para uma criança.

Eles filmaram um grupo de 102 crianças, todas com 2 anos ou menos, enquanto elas liam com seus pais. Os pequenos receberam dois livros de 10 páginas: um sobre bichos da fazenda e outro sobre animais selvagens. Cada livro tinha uma versão impressa e uma eletrônica.

Os pais liam em voz alta e descreviam as figuras nos livros de papel, mas os e-books vinham com música de fundo e uma narração automática (eram livros digitais relativamente simples, sem animações nem elementos clicáveis). Depois de analisar todos os vídeos, os pesquisadores chegaram à três conclusões.

  1. Ler um e-book muda o comportamento tanto dos pais quanto das crianças

Com os livros de papel, os pais assumiam uma postura mais ativa, apontando elementos e interagindo mais com as páginas. Já com as crianças, era o contrário: elas ficavam mais animadas com os livros eletrônicos, fazendo mais comentários durante a leitura, colocando os dedos na tela e até virando as páginas sozinhas.

2. Crianças bem pequenas se divertem mais com os e-books

Como o primeiro item indica, as crianças demonstraram mais interesse, engajamento e diversão com os livros virtuais.

3. Elas também aprenderam mais

Antes do experimento, os pais foram instruídos a checar quantos bichos da história as crianças reconheciam e eram capazes de nomear. Depois de terminar a leitura dos livros, os pais refizeram o teste. As crianças que haviam lido e-books tiveram um desempenho melhor, ou seja, aprenderam os nomes de mais bichos.

O porém

A pesquisa foi uma das poucas a investigar a leitura para crianças tão pequenas. E sua conclusão confirma algo que outros estudos detectaram em crianças maiores, a partir de três anos. O e-book exige menos esforço mental do que o livro físico – e isso, a longo prazo, pode deixar as crianças mal acostumadas. Os sons e as músicas de fundo dos e-books, que aumentam o engajamento das crianças bem novinhas, acabam distraindo as crianças mais velhas do conteúdo em si e, no longo prazo, dificultam seu aprendizado.

A conclusão, por enquanto, é de que faltam mais estudos sobre o assunto – e que a forma como o e-book é apresentado (com efeitos e chamarizes) é mais importante do que a plataforma em si. Se o livro eletrônico prende a atenção e destaca o conteúdo, ele é útil. Se só distrai a criança, não.

Link para a matéria: http://super.abril.com.br/comportamento/criancas-aprendem-mais-com-e-book-do-que-com-livro-de-papel/

Nick Jr. Books

A Nickelodeon acaba de lançar um aplicativo de leitura para crianças, disponível para iPad e iPhone. O Nick Jr. Books apresenta uma coleção de livros digitais com histórias de personagens do canal de tevê, como Patrulha Canina, Dora Aventureira, Dora e seus Amigos, Bob Esponja e diversos outros.

Ao todo, são 47 e-books disponíveis, todos narrados com três modos de leitura: auto-read, read-loud e read myself. Os e-books do Nick Jr. Books também apresentam efeitos interativos e animações com os personagens em todas as páginas. Não pudemos testar o aplicativo porque, infelizmente, ele ainda não está disponível na App Store brasileira.

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Assim que o aplicativo é instalado, são disponibilizados três e-books gratuitos para download (é preciso criar uma conta). Os títulos adicionais têm custo e há possibilidade de os pais controlarem o aplicativo para evitar compras não autorizadas.

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Apenas por conta de uma das imagens presentes na App Store, é possível verificar que aplicativo contém um elemento de gamificação, pois a criança ganha “estrelas” quando completa a leitura de um e-book.

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O aplicativo também traz dicas para os pais com o objetivo de aumentar o vocabulário das crianças e melhorar a interpretação de texto.

Os e-books da Dora Aventureira também apresentam versão em espanhol.

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(Para) além do livro: a narrativa transmídia

Quando comecei a trabalhar com literatura infantil e a estudá-la, não imaginava que, um dia, estaria contemplando propostas criadas para além do papel. Talvez porque uma das primeiras preocupações dos críticos, educadores e mediadores seja a relação da criança com o objeto. Mas, durante minha trajetória, acabei encontrando algumas pessoas que se aventuram a analisar, criticar e pensar o livro infantil digital.

O segundo passo foi olhar para a relação do papel e do digital; do livro e de outras mídias. Ao analisar o mundo atual, pode-se notar que mais do que nunca vivemos era da convergência. Oferecer diferentes formas de contar histórias é imprescindível. Assim, as narrativas crossmídia e transmídias começaram a ganhar mercado.

Mas, afinal, o que é essa tal transmídia? Este curto vídeo pode ajudar a explicar o conceito.

 

O termo foi utilizado pela primeira vez por Henry Jenkins em seu livro Cultura da Convergência, quando ele se refere à franquia Matrix, que exigiu um envolvimento maior do público com a história e os conteúdos espalhados por diversos canais para entender o “complexo universo ficcional”, ou seja, uma produção intencional transmidiática deve apresentar um conteúdo contínuo e profundo, sem fazer muitas repetições entre as mídias, e é necessário que o público seja participante ativo na criação de sentido.

As histórias, que antes iam apenas do papel para as telas, agora ganham outra versão em game; outro ponto de vista em histórias em quadrinhos etc. A chave para a literatura transmídia (infantil ou não) é a experiência, independentemente do suporte. Para uma narrativa transmídia conquistar, ela deve ser contada por palavras, imagens estáticas e em movimento, com e sem interação, permitindo que o “leitor” crie mundos particulares e coletivos. Os leitores participam da história, tornando-se um personagem ou, simplesmente, montando esse quebra-cabeças em que cada peça é uma mídia e, juntas, apresentam uma única e complexa narrativa.

As pessoas mais tradicionais podem ficar preocupadas com o papel do livro ou da literatura. No entanto, o livro está muitas vezes presente, seja ele impresso ou no formato de e-book. O restante é uma sequência narrativa e imaginativa. Trata-se de um jogo espontâneo e participativo (sim, sem participação e engajamento não há transmídia). A narrativa transmídia possibilita que a criança se torne um leitor-espectador-jogador, que reflete, participa e analisa/critica. Entretanto, como o foco é a narrativa, esse processo se dá por meio de uma aprendizagem relativamente natural, que pode ser potencializada pela atuação de mediadores adultos.

Textos para crianças e jovens no panorama das novas mídias

Por Aline Frederico

No fim de janeiro, tive a sorte e o prazer de participar do curso Textos para crianças e jovens no panorama das novas mídias, realizado no Centro de Literatura Infantil da Escola de Comunicação e Cultura, Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

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Com esse post, gostaria de dar uma pincelada nos aspectos que mais me chamaram atenção nas palestras e discussões que ocorreram nesses três dias.

Participaram desse curso oito doutorandos que estão fazendo pesquisas na área de literatura e mídia infantojuvenil, provenientes da Dinamarca, Noruega, Suécia, Estados Unidos e Brasil, e quatro pesquisadores seniores: a anfitriã e responsável pelo centro, Nina Christensen, Maria Nikolajeva (Universidade de Cambridge, Reino Unido), Maria Engberg (Universidade de Malmo, Suécia) e Birgitte Stougaard (Universidade de Aarhus, Dinamarca).

A professora Maria Nikolajeva é uma influente acadêmica na área de literatura infantil, com dezenas de livros publicados, sendo o mais recente deles Reading for learning: cognitive approaches to children’s literature (John Benjamins, 2014). No Brasil, seu título Livro ilustrado: palavras e imagens foi publicado pela Cosac Naify em 2011.

Na palestra intitulada “Como os textos digitais nos tornam pós-humanos”, Maria Nikolajeva discutiu o fato de a literatura digital, por suas qualidades multimodais e multimidiáticas, potencialmente provocar uma mudança em como usamos nossas capacidades cognitivas na leitura e comunicação, tornando-nos (especialmente os nascidos após a virada do milênio) pós-humanos. De forma simplificada, podemos dizer que o hemisfério direito do cérebro favorece a comunicação visual, enquanto o esquerdo favorece a verbal. Na infância, o hemisfério direito apresenta significativa participação em como usamos nossas capacidades para ler o mundo e nos comunicar, o que progressivamente se modifica no desenvolvimento da criança e do adolescente, até quem na fase adulta, nossa comunicação é dominada pelo lado esquerdo do cérebro, que privilegia o racional e o verbal. Maria Nikolajeva argumenta ainda que as qualidades da comunicação digital, como a multisensorialidade e a não linearidade, têm o potencial de trazer novamente o enfoque da nossa capacidade cognitiva, em termos de comunicação, para o hemisfério direito, uma mudança que poderá afetar radicalmente como nos relacionamos com o mundo.

Na pesquisa apresentada pelos doutorandos, a discussão do papel do leitor no processo de criação de sentido com textos digitais permeou praticamente todos os projetos. Será o termo leitor ainda apropriado para nomear o indivídulo engajado com um texto digital? Seria ele um usuário? Um jogador? Um performer? A leitura digital e a interatividade constituem um outro tipo de leitura ou apenas tornam mais explícitos processos que são invisíveis quando lemos, por exemplo, um romance?

Outra grande discussão girou em torno do conceito de leitor implícito. Esse conceito, muitas vezes já ignorado na literatura “adulta”, é fundamental nos estudos literários para crianças e jovens, umas vez que a existência de um leitor implícito infantil é considerado por muitos pesquisadores um fator importante para considerar um texto literatura infatojuvenil ou não. Outro aspecto que muitas vezes está presente na definição de literatura infantil é a existência de uma dupla audiência, ou um leitor implícito adulto além do infantil. Ainda que em termos literários esse conceito seja útil, um questionamento frequente nos debates foi se esse conceito ainda é válido em um universo digital em que a diversidade do leitor e sua participação também como cocriador dos textos lhe concede muito mais autonomia e poder de ação (de agency, em inglês). Assim, em virtude do papel fundamental que o leitor apresenta na análise da literatura digital, um caminho certamente é incorporar na leitura literária pesquisas empíricas com leitores de diversos perfis.

 

Fotos da supermoderna biblioteca DOK 1

 

Algumas das pesquisas apresentadas pelos doutorandos incluem estudos empíricos com leitores infantis. Nesses estudos, um aspecto muito discutido foi a característica fortemente lúdica da literatura digital, e a possível transformação do tablet em um “toyblet”, termo sugerido pela brasileira radicada na Dinamarca Isabel Froes, ou o tablet como um brinquedo com múltiplas funcionalidades, entre elas a literária. Também foi relatado que, ao contrário do que é sugerido pelo senso comum, de que as crianças são naturalmente aptas à tecnologia e que a manejam com destreza e naturalidade, aquelas em idade pré-escolar participantes desses estudos apresentaram uma destreza limitada para manipular sozinhas os tablets e os aplicativos.

Maria Engberg trouxe uma perspectiva da área de estudos de mídia e design, área em que atua. Em sua aula magna intitulada “A estética e a percepção da literatura digital multimodal”, sugeriu um retorno ao conceito de “descrição densa” cunhado pelo antropólogo Clifford Geertz e sua utilização na análise de textos digitais multimodais. Pela complexidade desses textos e por sua poliestética, termo cunhado pela própria Engberg (veja mais em http://polyaesthetics.net/), esses textos alteram o que entendemos por produção e recepção literária. Assim, para a análise da literatura digital, ela sugere um olhar antropológico, que considera “a vida social de um texto” e expande o olhar para além do texto em si, considerando tanto seus criadores quanto os usos diversos desse material por leitores variados.

De volta aos temas que permearam os debates, a sugestão de um olhar antropológico trazida por Engberg veio a calhar com a discussão levantada por alguns doutorandos sobre o aspecto provisório dos textos digitais; o texto deixa de ser um artefato para ser tornar um evento, situado portanto em determinado espaço-tempo e sendo constantemente renovado.

 

A biblioteca DOK 1 proporciona a seus usuários acesso a mídias eletrônicas, incluindo videogames: https://www.aakb.dk/english/english

Outro tema que permeou o trabalho de diversos doutorandos foi a metaficção. A transição de uma cultura impressa para digital e as próprias características da mídia digital, gerando um questionamento dos conceitos de livro, texto, autor e leitor, entre outros, fazem da literatura digital um espaço fértil para a discussão sobre o caráter ficcional dos textos. Por exemplo, foi questionado o fato de o aplicativo The Monster at The End of This Book ter sido transformado em aplicativo, uma vez que as possibilidades/qualidades (affordances, em inglês) da mídia digital são significativamente diferentes das do livro em formato de códice, e que essas características do livro impresso eram essenciais ao caráter metaficcional dessa narrativa. No entanto, a mídia digital tem a capacidade de se transformar e simular algumas das affordances do livro impresso. No espaço da ficção, uma vez que o aplicativo se autodenomina um livro e estabelece esse fato como regra entre texto e leitor, basta que o tablet se “transforme” em um livro. Exemplos de literatura juvenil metaficcional discutidos foram os aplicativos Tavs e Pry.

Finalmente, foi discutido o aspecto transmídia da literatura digital. Ainda que uma grande parte dos livros digitais sejam remediações de publicações impressas, é crescente o número de textos criados exclusivamente para o meio digital ou ainda publicados como cluster ou grupo de publicações simultaneamente (ou quase) presentes em diversas mídias, como aplicativos, filmes de animação, aplicativos de realidade aumentada e livros impressos. Esse é o caso por exemplo das narrativas Os fantásticos livros voadores de Morris Lessmore ou Os Numberlys, ambos produzidos pelo Monboot Studios.

No fechamento do evento, ficou claro que temos ainda mais perguntas do que respostas e uma nova metalinguagem é necessária para descrever e compreender com profundidade o fenômeno da literatura digital, evitando assim gerar a dicotomia impresso/analógico versus digital, uma vez que, em se observando o uso desses textos pelos leitores em seus contextos, o que se observa é um vai e vem suave entre os diversos tipos de mídia, incluindo o livro como forma de tecnologia.

A seguir, destaco duas referências importantes:

AL-YAQOUT, Ghada; NIKOLAJEVA, Maria. Re-conceptualising picturebook theory in the digital age. BLFT – Nordic Journal of ChildLit Aesthetics, [S.l.], v. 6, jan. 2015. ISSN 2000-7493. Disponível em:<http://www.childlitaesthetics.net/index.php/blft/article/view/26971&gt;. Acesso em: 14/2/2016. doi:http://dx.doi.org/10.3402/blft.v6.26971.

ENGBERG, Maria. Polyaesthetic sights and sounds: media aesthetics in The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore, Upgrade Soul and The Vampyre of Time and Memory. Sound Effects: An Interdisciplinary Journal of Sound and Sound Experience. v.4.1, 2014. ISSN 1904-500X. Disponível em: https://www.academia.edu/12010419/Polyaesthetic_sights_and_sounds_media_aesthetics_in_The_Fantastic_Flying_Books_of_Mr._Morris_Lessmore_Upgrade_Soul_and_The_Vampyre_of_Time_and_Memory . Acesso em: 21/2/2016.

Algumas das obras de literatura infantojuvenil digital discutidas no curso:

Pry: https://itunes.apple.com/app/id846195114
Tavs: https://itunes.apple.com/dk/app/tavs/id687687314?mt=8
The Monster at The End of This Book: https://itunes.apple.com/gb/app/monster-at-end-this-book…starring/id409467802?mt=8
The Numberlys: http://thenumberlys.com/
The Flying Books of Morris Lessmore: http://morrislessmore.com/
Yesper and Noper: https://itunes.apple.com/us/app/yesper-and-noper/id839534236?mt=8

 

Do Impresso ao Digital? Considerações sobre o Futuro do Livro Ilustrado para Crianças (Junko Yokota)

Como primeiro texto do blog, escolhi traduzir um capítulo do livro Bologna: fifty years of children’s books from around the world, uma edição comemorativa pelos cinquenta anos da aclamada Feira de Bolonha, escrito pela acadêmica Junko Yokota em 2013, ou seja, trata-se de um material recente. No texto original, havia exemplos de livros transformados em aplicativos, mas, como não temos os direitos de publicação, optamos por não publicá-los aqui.

Junko Yokota é professora emérita de Leitura e Linguagem na National Louis University (Chicago) e diretora do  Center for Teaching through Children’s Books. Trabalha com livros infantis há 25 anos e é coautora de Children’s Books in Children’s Hands, cuja quinta edição foi lançada este ano pela Pearson nos Estados Unidos.

Convido a todos a postarem seus pontos de vista, discordâncias e reflexões nos comentários. Sejam mais que bem-vindos!

 

Do Impresso ao Digital? Considerações sobre o Futuro do Livro Ilustrado para Crianças

O Mundo Digital dos Livros para Todos

O mundo digital trouxe mudanças para o setor editorial em um ritmo vertiginoso. Em alguns aspectos, a velocidade dessa evolução foi maior que as oportunidades de mudanças ponderadas e fundamentadas à medida que os criadores de livros corriam para se manter à frente do jogo. O surgimento dos e-readers impactou as vendas dos livros impressos, e as vendas de e-books para adultos ultrapassaram as dos impressos nos primeiros anos em que esses dispositivos começaram a estar disponíveis. O mundo editorial mudou significativamente a maneira de se relacionar com a leitura.

A situação dos livros infantis é bem diferente. Em particular, os livros ilustrados em formato digital avançaram mais lentamente em termos de vendas. Por que isso acontece? O que o futuro guarda para esse tipo de livro? E, mais importante ainda, os livros ilustrados devem mesmo tornar-se digitais? Estas são as perguntas abordadas neste artigo.

Por que o Fenômeno do Livro Digital Cresceu Tão Rapidamente?

Acesso

Os e-books podem ser acessados por meio de um computador, um leitor de livros digitais, um tablet ou um smartphone conectado à internet – a qualquer hora e em qualquer lugar. As bibliotecas públicas de alguns países já fazem empréstimos de e-books. As bibliotecas escolares e as bibliotecas públicas que atendem aos jovens têm serviços de assinatura que permitem o acesso a um enorme número de e-books. No mundo dos livros impressos, as bibliotecas jamais poderiam ter essa grande quantidade de livros que tais serviços oferecem e, mais ainda, não poderiam pagar por eles, não coneguiriam fazer seu gerenciamento e muito menos ter espaço nas prateleiras para eles.

Conveniência

Os e-books podem ser lido de muitas maneiras – leitores de livros digitais, tablets, smartphones, computadores etc. –, e eles podem, de maneira eficiente, sincronizar a leitura dos conteúdos em vários dispositivos. As pessoas podem começam a ler um livro digital enquanto esperam na fila do mercado, em seus smartphones ou em um leitor de livros digitais, também chamados de e-readers. Depois, elas podem continuar a leitura em seus computadores ou tablets. Se o leitor utilizar a mesma conta, o livro permanece perfeitamente sincronizado em todos os dispositivos.

Preço

O preço médio de um e-book ou aplicativo é significativamente menor do que o de um livro físico. Existe uma meta de acesso equitativo a um preço justo, mas esse preço ainda não foi ser determinado.

É difícil argumentar contra a leitura digital, tendo em vista que ela é mais acessível e conveniente. Ainda mais quando se trata de livros infantis, pois os mesmos pais que leem livros digitais muitas vezes preferem ler livros impressos para os seus filhos, como citado no artigo do New York Times intitulado For Their Children, Many E-Book Fans Insist on Paper (Para Seus Filhos, Muitos Fãs de E-Books Insistem no Papel). De acordo com um relatório do Digital Book World (For Reading and Learning, Kids Prefer E-Books to Print Book) [Para Ler e Aprender, as Crianças Preferem os E-Books aos Livros Impressos], no entanto, as crianças preferem os e-books às versões impressas. Minha perspectiva é de que precisamos de um futuro equilibrado, como citado no artigo da Publisher’s Weekly: Children’s Books Must Exist in Digital and Print (Os Livros Infantis Devem Existir em Versões Impressa e Digital).

Livros Digitais para Crianças: Direções Promissoras

Um tipo de livro infantil com maior potencial são aqueles de referência. É difícil manter os títulos de não ficção atualizados, mas aplicativos e formatos digitais, uma vez carregados, podem ser facilmente atualizados com frequência. No mundo adulto, grandes enciclopédias e dicionários de renome estão deixando de ser impressos e caminhando em direção a um mundo totalmente digital. No entanto, quando se trata de livros ilustrados, essa necessidade premente de torná-los digitais não existe.

O Mundo Digital e os Livros Ilustrados: Potenciais e Armadilhas

Considerando que as bibliotecas eram o principal mercado para os livros ilustrados impressos, os pais e o mercado doméstico agora são o foco para fazer o marketing de aplicativos e versões digitais dos livros ilustrados. Os desenvolvedores de livros infantis ilustrados digitais e aplicativos também são diferentes dos editores de livros impressos. Mais pessoas familiarizadas com a tecnologia e com o que ela pode proporciona estão liderando os novos formatos de livros, e a experiência dessas pessoas está na tecnicalidade de como criar recursos para materiais digitalizados. Portanto, por essa razão, a percepção das histórias e de como contá-las costuma diferir entre os dois grupos, e o que cada um deles produz em termos de livro ilustrado também acaba sendo conceitualmente diferente.

Atualmente, existe um debate entre aqueles que querem digitalizar o máximo de conteúdo o mais rápido possível e aqueles que não veem valor na digitalização de livros para crianças, já que o livro é considerado um objeto melhor. Em algum lugar no meio de tudo isso, está a perspectiva da maioria das pessoas. O que precisa ser realmente considerado é a tomada de decisão equilibrada com base em fatores concretos: público, objetivo, entrega. Quem é o público-alvo e quais são suas necessidades? Qual é o propósito do livro? E qual seria a melhor maneira de entregar esse conteúdo para um público específico?

Meu trabalho se concentra na comparação entre livros ilustrados bem projetados e seus  homólogos digitais. O que se segue a partir de agora é uma comparação que pode servir de exemplo de como as histórias são contadas em um livro ilustrado impresso e em um livro infantil digital.

Para começar, o rico legado de livros para crianças deve ser levado em conta. Desde seus tempos remotos, com a narração oral, compartilhar histórias com crianças tem sido uma forma de arte. Gerações de crianças cresceram ouvindo histórias contadas pelos adultos. Após o advento da imprensa, vieram os livros ilustrados em papel. A história do desenvolvimento dos livros ilustrados é um campo muito bem pesquisado (por exemplo, por  Nikolajeva e Scott, 2001), e devemos muito àqueles que têm trabalhado em pesquisas sobre esse assunto e continuam a melhorar as experiências com livros ilustrados para as crianças de hoje. Sem dúvida, o livro ilustrado tal como o conhecemos hoje é uma forma de arte.

Design do Livro

Um livro ilustrado bem concebido e que tem sido repetidamente considerado padrão é Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak. Ele funciona tão perfeitamente que os leitores não suspeitam de que cada aspecto foi propositadamente concebido a fim de maximizar a experiência do livro ilustrado para o leitor. A capa é uma obra de arte, mas também serve como um veículo para convidar os leitores à leitura do livro. As guardas prenunciam o cenário da terra imaginária contada no livro e transportam o leitor até o local onde acontece o clímax da história. O ritmo de toda a história é descrito pelas ilustrações e pelo texto, que se complementam sinergicamente ao longo do livro. Até mesmo o papel utilizado na impressão é tão específico que a até mesmo segurar o livro em suas mãos faz parte de toda essa experiência bem calculada. Como é que um livro que oferece à criança leitora uma experiência tão singular deve ser adaptado para o mundo digital? Ou talvez a pergunta correta seja: ele deve ser adaptado?

Tamanho e Forma

Livros ilustrados impressos são projetados levando-se em consideração que seu tamanho e sua forma impactam a experiência geral de leitura do livro. Por exemplo, o livro The Man Who Walked Between the Towers, ganhador do prêmio Caldecott, foi concebido como um livro alto e fino, que simula o format dos arranha-céus.

No entanto, quando o protagonista da história caminha entre as torres do livro, Gerstein usa um recurso visual para criar múltiplos cenários agrupados com o objetivo de sugerir que a ação da história está acontecendo em um ritmo mais rápido, a fim tirar proveito do tamanho relativo das páginas e também para criar uma sensação de movimento horizontal. No clímax da história, quando Philippe Petit está realmente caminhando sobre o fio, as ilustrações exigem que o livro seja virado de lado. Outros exemplos: Beatrix Potter queria que seus livros fossem diminutos porque “mãos pequenas pedem livros pequenos”, e as histórias de Peter Rabbit (Pedro, o Coelho) exemplificam esse sentimento. Em The Story of the Little Mole, de Werner Holzworth e Wolf Erlbruch, um bando de toupeiras tenta descobrir quem deixou cair uma coisa marrom muito suspeita na cabeça delas. Como essa é uma história que descreve uma “jornada”, o formato em paisagem do livro é dobrado aberto e as páginas são viradas.

Impactos na Alteração do Design

Quando os livros projetados para serem impressos caminham em direção ao mundo digital, eles são adaptados para um formato no qual não foram criados. A mais antiga geração de e-books consistiu em transformações digitais de livros ilustrados já publicados em sua forma impressa. Na maioria das vezes, eles foram digitalizados ou houve um movimento semelhante ao dos filmes, ou seja, adicionou-se um áudio, e a arte foi colocada no formato padrão do leitor de e-book. As capas foram, por vezes, substituídas por um modelo para representar a marca da empresa digital. A história permaneceu a mesma, e a arte original serviu como base, mas o design do livro  foi comprometido e, por conseguinte, toda a experiência de leitura da criança foi alterada. Em essência, os criadores desses novos formatos acharam que poderiam pegar um título idealizado para ser exibido no meio impresso (como um livro ilustrado clássico de 32 páginas) e tornaram sua própria finalidade primária, além de criarem uma nova versão em que coubesse essa necessidade (cf. http://www.slideshare.net/mikeyiz/the-man-who-walkedbetween-the-towers-2282654).

Ao comparar as versões digital e impressa atuais de livros ilustrados e considerando o que funciona bem em cada versão, as perguntas a seguir guiaram minha análise dos formatos digitais:

1) O estilo de narrativa visual é apropriado para o formato?

2) Quais efeitos os recursos adicionais de voz e movimento têm sobre a experiência de leitura?

3) Quais qualidades os recursos interativos adicionam a essa experiência? Existem recursos que interrompem a compreensão do leitor?

Motivação e Engajamento

Alega-se que aplicativos para contar histórias são “motivadores e envolventes” para as crianças. Muitas vezes, isso é verdade. Os aplicativos de alta qualidade continuam com a intenção inicial da contação de histórias, incluindo recursos que a impulsionam e melhoram a experiência de leitura. Alguns até apresentam um botão que altera instantaneamente o idioma em que a história é narrada. Entretanto, há também muitas características que são problemáticas, pois eles podem, por exemplo, interromper a narrativa e distrair a atenção da criança, prejudicando a compreensão da história.

Alguns aplicativos confiam na “marca” para ajudar a vender o produto. Quando os pais veem escrito “Dr. Seuss” no aplicativo, eles se lembram de sua própria infância, então ocorre uma nostalgia e eles se conectam com o argumento de vendas da aprendizagem da leitura. No entanto, os aplicativos induzem ao erro quando se anuncia que eles “ensinam a ler”. Ao analisar essa questão um pouco mais de perto, percebemos uma incompatibilidade entre o que se pretende e o motivo pelo qual o livro digital foi projetado. Por exemplo, se a criança clicar em uma imagem, aparece uma palavra escrita. Mas isso, quando feito de forma inconsistente, provoca uma certa confusão. Às vezes, aparecem substantivos e, em outros momentos, frases inteiras que podem ou não coincidir com a ilustração que está aparecendo na tela. O que faz os livros de Dr. Seuss venderem bem? Eles oferecem experiências divertidas de praticar a leitura das palavras que são fonéticas e palavras irregulares “decodificáveis” pela aplicação de regras de leitura em inglês. Os desenvolvedores de aplicativos devem concentrar-se nesse tipo de oportunidade para melhorar os pontos positivos dos livros em vez de oferecer algo que impede a aprendizagem, não importa quão atraente ou motivador seja clicar em palavras e ver coisas acontecendo.

Ao fazer transições do impresso para o digital, há duas questões que precisamos ter em mente:

1) Que experiências o mundo digital pode oferecer e que o livro impresso não consegue dar conta?

2) O que o mundo dos livros impressos pode continuar a oferecer e que pode apresentar limitações nas experiências digitais?

Com essas duas perguntas, podemos pensar o que acontecerá no futuro. Embora não possamos fazer previsões certeiras, podemos nos preocupar com o que é melhor para as crianças hoje. Em última análise, livros em formato impresso contiuarão a ter seu lugar, assim como as narrativas orais têm seu papel até hoje (mesmo com todas as narrativas digitais que existem atualmente!). No entanto, à medida que aumentam as maneiras de se oferecer histórias para as crianças, devemos fazer escolhas muito cuidadosas para dar-lhes o melhor que podemos criar.

Referências

  1. Gerstein, The Man Who Walked Between the Towers, Roaring Brook, New York, 2003.
  2. Greenfield, For Reading and Learning, Kids Prefer E-Books to Print Books, in Digital Book World, January 9, 2012. http:// www.digitalbookworld.com/2012/for-reading-and-learningkids-prefer-e-books-to-print-books/.
  3. Habaash, TOC 2012: Children’s Books Must Exist in Digital and Print, in Publisher’s Weekly, February 14, 2012, http://www.publishersweekly.com/pw/by-topic/childrens/ childrens-industry-news/article/50631-toc-2012-children-sbooks-must-exist-in-digital-and-print.html.
  4. Holzwarth, The Story of the Little Mole Who Went in Search of Whodunit, illustrazioni di W. Erlbruch, Abrams, New York, 2002 (originally published in Germany in 1993).
  5. Nikolajeva, C. Scott, How Picturebooks Work, Routledge, 2001.
  6. Richtel, J. Bosman, For Their Children, Many E-Book Fans Insist on Paper, in New York Times, November 20, 2011, http:// http://www.nytimes.com/2011/11/21/business/for-their-childrenmany-e-book-readers-insist-on-paper.html?_r=0. M. Sendak, Where the Wild Things Are, Harper, New York, 1963.

Tradução de Danielle Sales, autorizada por Junko Yokota.